Bispo Alexandre Rodrigues Metello
Teólogo, Missiólogo,
Pedagogo, Advogado, Professor de Português-Literatura,
Filósofo, Sociólogo, Historiador, Psicanalista e Psicoterapeuta.
O QUE É A PALAVRA DE DEUS?
Introdução:
“Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça.Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra”. (II Timóteo 3:6). Uma discussão bem antiga gira em torno do que é Palavra de Deus e o que não é Palavra de Deus. Todos sabemos que, por exemplo, os judeus só albergam como Palavra de Deus o Antigo Testamento ou Primeiro Testamento. Já no Cristianismo uma celeuma se forma entre católicos e protestantes, sobre livros inspirados e livros não inspirados. De sorte que para nós protestantes existem livros heterodoxos (ou seja, aqueles que não estão em consonância com o cânon bíblico no que toca a dogmática cristã) e os livros apócrifos (aqueles considerados não canônicos, quer dizer, não inspirados por Deus) e os livros canônicos (inspirados por Deus). Bom de ver que, a Bíblia Protestante possui sessenta e seis (66) livros, e a Bíblia Católica possui setenta e três livros (73) livros. Na Bíblia Protestante não aprecem os seguintes livros: Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico, Macabeus I e Macabeus II. Viceja dizer que vários concílios aconteceram para se definir o cânon bíblico e, os referidos livros apócrifos não entraram na Bíblia Protestante em virtude da origem duvidosa, e a falta de ligação sistemática com a íntegra do texto Sagrado. Podemos citar alguns importantes concílios que discutiram a canonicidade da Bíblia, tais como, Concílios de Roma (382), Hipona (393), Cartago I (397), Cartago II (419) e por fim o concílio de Trento, em 1546. Não vamos entrar nos detalhes dos debates havidos nesses concílios, nem tampouco vamos nos aplicar às questões muito profundas sobre os parâmetros usados para testar ou medir ou analisar cada texto, porém, nos ateremos às verdades simples, as quais são suficientes para alicerçar a nossa fé na verdadeira Palavra de Deus, e noutro momento vamos aprofundar o tema.
I – O CRITÉRIO DA SIMPLIFICAÇÃO
Na minha vida cristã, aprendi a simplificar sem esvaziar de sentido e de conteúdo o que é importante para a nossa fé. Nota-se, nós não aceitamos a inserção de livros no Cânon do Antigo Testamento, além daqueles que os nossos irmãos judeus, experts em Antigo Testamento, consideraram como canônicos. Já a igreja católica insere outros. Ponha-se às claras, que todos os livros apócrifos da Bíblia Católica foram incluídos no Antigo Testamento e são chamados pelos católicos de Deuterocanônicos (quer dizer, uma forma de suavizar a natureza apócrifa deles), o que significaria “segundos canônicos”, contrastando, com os primeiros canônicos da Bíblia judaica. A par disso, sublinha-se que o critério da simplificação não admite, o simplismo ou o simplório. Mas, facilita uma fé genuína e pura. Vamos simplificar, portanto, o nosso entendimento sobre o que é a Palavra de Deus. No que tange ao Antigo Testamento o critério utilizado é o da reunião de textos que tiveram uma narrativa trazida por respeitados profetas que, lograram êxito em terem relacionamento com Deus. Esses profetas desde Moisés, figura histórica e não mitológica, até Malaquias, tiveram profecias que se cumpriram literalmente em diversos momentos da história humana, de tal maneira que, tornaram-se incontestáveis como Palavra de Deus. Não obstante, o Antigo Testamento é tão rico que, nele temos comprovações históricas, geográficas, arqueológicas, paleontológicas, geopolíticas, culturais, étnicas, religiosas etc. À guisa de exemplo, quando vemos constantes e inumeradas guerras entre Israel e Palestina, ao lermos a Bíblia constatamos que Israel representa os antigos hebreus e os palestinos representam os Filisteus do passado. Quando, não obstante, vemos lutas entre Israel e os países islâmicos, isso fica muito claro a partir do momento que, debruçamo-nos sobre a história dos dois filhos de Abraão (Gênesis 12 e ss), quais sejam: Isaque (Gênesis 21) e Ismael (Gênesis 16:11 e Gênesis 21). Esse, pai dos muçulmanos, e aquele, pai dos Judeus. O Antigo Testamento tem ciência, tem profecia, tem poesia, tem sabedoria, tem história verídica, tem leis (Êxodo 20), tem ensinamento ético e moral, tem antropologia, tem sociologia com clara exposição de como a sociedade se formou, passando por evolução de família, tribo, clã, povo, nação. Noutro passo, ainda, fincados na simplificação, no que tange o Novo Testamento, não é diferente. Cremos no Novo Testamento como Palavra de Deus, porque traz em seu bojo, uma narrativa da vida do Senhor Jesus Cristo no mundo, como verbo encarnado (João 1:1-14). Os Evangelhos Sinóticos trazem alusão ao Jesus da Dogmática, enquanto que João trouxe alusão ao Jesus da Mística, o Logos. O Novo Testamento tem parcela da história da igreja primitiva (o livro de Atos dos Apóstolos). E tem as epístolas paulinas (eclesiais e pastorais), bem como as epístolas gerais (Tiago, Pedro, João, Judas) e o livro da Revelação escatológica (Apocalipse de João). Face ao exposto, pode-se inferir, o Novo Testamento se tornou incontestável, por trazer o seu texto, missivas de pessoas que andaram com o Salvador Jesus Cristo, e, pode-se enxergar facilmente uma compatibilidade entre o que cada um escreveu, de tal arte que, percebe-se que se complementam. Notamos a mesma verdade no Antigo Testamento, pois, os profetas tiveram experiências com o Deus vivo e esses nos anunciaram a vontade de Deus. Então, é assim, de um lado, temos os profetas, e do outro lado, temos os apóstolos, cremos nesses e naqueles. E posso ir mais longe, cremos que as palavras de Deus por eles transmitidas, se revelam da maneira que o autor aos Hebreus tipificou, verbis: “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração”. (Hebreus 4:12). Existe também uma clara e evidente complementariedade entre o Antigo e o Novo Testamento, posto que, o primeiro fala do Messias que viria, e o segundo, fala do Messias já vindo. Depois disso, vamos considerar um outro critério que irá nos ajudar, qual seja, o da interpretação.
II – O CRITÉRIO DA INTERPRETAÇÃO
Agora bem, no que diz respeito ao critério da intepretação, a Bíblia ganha ainda mais força, pois, há mais de 2000 anos ela vem sendo interpretada e entendida como Palavra de Deus, sem sofrer qualquer abalo. Sem dúvida alguma, é o livro mais perseguido, mais proibido, mais blasfemado, mais amado, mais desrespeitado, mais lido, mais comentado, mais estudado, mais ensinado e mais pregado. Se sempre foi assim, é porque é um livro muito especial, e sua principal especialidade é o da transformação. O que nela está escrito sobre cura, sobre libertação, sobre as verdades que inerem o ser humano, sobre o pecado, sobre o perdão, sobre a perdição e sobre a salvação, gize-se que todos os dias verdades tais se cumprem e se comprovam. Malgrado, precisamos considerar, o que o leitor da Bíblia precisa fazer para compreendê-la? Três coisas: A primeira coisa a fazer é considerar o seu conteúdo, a segunda, é entender o seu sentido, a terceira, é compreender o seu alcance. As três palavras basilares são: Conteúdo, sentido e alcance. O conteúdo da Bíblia é diferente de qualquer outro livro do mundo, ela apresenta a vontade de Deus. Atrelado a isso, a Bíblia traz o sentido da vida, ou seja, estabelecermos comunhão com Deus, pela graça de Deus, como está escrito: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós é dom de Deus” (Efésios 2:8). E, a última é o alcance. Penso que esse é o ponto mais desgastante. Senão vejamos: Muitos se dizem cristãos, mas escolhem o que vão obedecer e o que não vão obedecer da Palavra de Deus, por assim dizer, prejudicam o alcance. Por exemplo, em se tratando do Antigo Testamento, tem crente que ama o livro de Salmos, pois consola, outros amam Provérbios, porque instruem, mas odeiam os mandamentos, ao passo que exigem obediência. Então, se eu escolho o que vou guardar e obedecer, prejudico o alcance da Palavra de Deus. Tenha-se por oportuno dizer que o Antigo Testamento tem como destinatários primários os judeus e secundários os cristãos, e o Novo Testamento os destinatários primários são os cristãos, e os judeus são destinatários secundários, mas, tanto de um Testamento como de outro, somos todos destinatários, quer dizer, judeus e gentios. In fine, precisamos nos aprofundar no conteúdo da Bíblia, entender o sentido, e permitir que ressignifique as nossas vidas, e aprofundar, aumentar, ampliar, alargar o seu alcance de nossa vida e de outrem.
De seu conservo e Bispo Alexandre R. Metello.