Bispo Alexandre Rodrigues Metello
Teólogo, Missiólogo,
Pedagogo, Advogado, Professor de Português-Literatura,
Filósofo, Sociólogo, Historiador, Psicanalista e Psicoterapeuta.

 

O PROBLEMA DA TENTAÇÃO

“Justo serias, ó Senhor, ainda que eu entrasse contigo num pleito; contudo falarei contigo dos teus juízos. Por que prospera o caminho dos ímpios, e vivem em paz todos os que procedem aleivosamente? Plantaste-os, e eles se enraizaram; crescem, dão também fruto; chegado estás à sua boca, porém longe de suas entranhas. Mas tu, ó Senhor, me conheces, tu me vês, e provas o meu coração para contigo; arranca-os como as ovelhas para o matadouro, e dedica-os para o dia da matança. (Jeremias 12:1-3).

 

Introdução:

Eu aprendi que o diabo é como um pianista que toca sempre naquela tecla que está desafinada com a vontade de Deus. o desafino está em nossos desejos que gritam dentro de nós. No texto em epígrafe o profeta estava arrostando um grande problema, bateu nele uma dúvida tentadora, qual seja, por que prospera o caminho dos ímpios? Quando vemos o ímpio prosperando ainda que imerso em sua impiedade, ficamos em dúvida sobre o valer ou não valer a pena buscar a santificação. Bem assim, ficamos a pensar...se o ímpio prospera independentemente de sua obediência, por que devo obedecer? Ao longo desse texto, iremos certamente aprofundar esse debate, mas primeiro vamos entender qual é a diferença entre tentação e provação?

 

1. A diferença entre tentação e provação

O apóstolo Tiago nos apresenta uma verdadeira aula sobre essa situação paradoxal. Diga-se de passo, situação contraditória entre tentação e provação. Acredito que todo e qualquer crente sabe que a tentação é promovida pelo diabo, e a provação é permitida por Deus. A diferença que me parece bem peculiar é que a tentação é o objetivo precípuo do diabo, pois, ele vê o ser humano como um “meio” para ofender a Deus. Mas a provação não é o objetivo principal de Deus, pois, Deus não vê o homem como um meio, mas um fim em si mesmo. Com certeza, essa verdade é bem Kantiana (Immanuel Kant). “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam.” (Tiago 1:12). A sabedoria de Deus está aqui, pois, a tentação promovida pelo diabo e permitida por Deus, acaba sendo uma forma de provar a fidelidade de seus servos. Notadamente, tentação e provação aparecem no mesmo texto, e possuem conteúdos diversos.

 

2. Quem é o tentador?

A despeito de não aparecer quem é o autor de que ou do que, parece bem claro que o diabo promove a tentação, e Deus permite a provação. O problema não está no que, mas no quem. Com respeito a isso, a Palavra de Deus em outro lugar diz: “Portanto, não podendo eu também esperar mais, mandei-o saber da vossa fé, temendo que o tentador vos tentasse, e o nosso trabalho viesse a ser inútil”. (1 Tessalonicenses 3:5). Com efeito, o texto versiculado apresenta o vocábulo  (peirazon, Gr.) ou seja, o Tentador. Cumpre observar que de acordo com o Douto professor W. C. Taylor “Peirazon” remete a ideia daquele que experimenta o caráter de alguém ou testar a fé ou a capacidade de resistência. Bom de ver que alguns literalistas esperam que no texto bíblico tenha rubrica ou assinatura do diabo, assumindo no versado, a posição de tentador em todos os textos, não é assim; o que se pode constatar é que a interpretação sistemática, leva-nos a crer que o diabo é o tentador, como está escrito: “E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele. E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte”. (Apocalipse 12:9-11). Somado a esse texto, vem a reboque o que está exposto em I Pedro 5, verso 8, leia-se: “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão bramando, buscando a quem possa tragar” (1 Pedro 5:8). Resta claro que o diabo é o tentador, isso posto, apura-se que se ele insiste em dizer que Deus não tem servos fiéis, por outro lado, Deus confia em seus filhos, sabe que, nós o amamos, porque Ele nos amou primeiro (I Jo 4:19). Considere uma coisa, o diabo é chamado de adversário. E essa palavra adversário remonta ao significado da palavra hebraica “satan”. Cola-se em mente, que o diabo é o satanás e esse mesmo é o tentador. Necessariamente, devo dizer, que o inimigo de nossas almas recebe o título de diabo, do vocábulo “diabolos”, que significa aquela que dispersa, acusa. É o contrário de símbolo, ou seja, aquele que reúne o significado. Então, o que inimigo de nossas almas busca fazer é quebrar o significado de Deus em nossas vidas. Por isso, amei ler no livro (Dicionário dos Símbolos) de Mircea Eliade que “nós somos uma tribo ao redor da cruz”. O simbólico da cruz. Existe, na verdade, o que a Teologia chama de diálogo textual, ou diálogo entre os textos. Por isso, em mais um passo, devemos considerar como a tentação acontece.

 

3. Como a tentação se manifesta?

Quem leciona primorosamente sobre o que está assuntado é o apóstolo Tiago. Mas, antes, emergiu do meu inconsciente uma leitura, qual seja, do recomendável livro “A revolução dos bichos”, de George Orwell. Nesse livro, o autor, aponta que, porcos insatisfeitos com o fazendeiro moveram uma revolução entre os bichos para matarem o fazendeiro, depois que o mataram, eles, os porcos, assumiram o poder. Então, cortaram a ração dos animais, seus direitos, e passaram a mandar os porcos a se chafurdarem na lama. Na Faculdade de Sociologia pude assistir um forte documentário sobre o movimento do MST que me fez lembrar desse livro. Pois, no documentário mostra que os líderes do MST cooptaram famílias para invadirem fazendas, e depois que conseguiam o intento de ocupação, os líderes do movimento passaram a cobrar valores altíssimos por alimentação, tornando-os trabalhadores análogos a escravos, pois sem dinheiro para pagar pelos alimentos, tinham que pagar com o trabalho. O Ministério Público do Trabalho ajuizou ações civis e criminais contra esses líderes. Por outro lado, no documentário mostrou um processo de favelização absurdo, medonho, muito triste, posto que, colocam essas famílias nas terras, mas não lhes oferecem meios de trabalho, sementes, tecnologia, técnicas de plantio etc. Essas pessoas caíram no laço, em virtude do que o apóstolo Tiago ensinou, leia-se: “Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta. Mas, cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte”. (Tiago 1:13-15). Então, é a concupiscência que atrai e seduz. O encontro entre o objeto proibido desejado e o sujeito desejante gera o pecado. E o pecado consumado gera a morte. Lendo o livro: Introdução à Psicopatologia Forense aprendi que o pecado muito se assemelha com o crime, e assim como o crime é uma psicopatologia, o pecado de igual modo. A concupiscência aqui é a tentação como instrumento de concretização do pecado. Segundo Kant, o pecado poderia ser considerado o desagrado para Deus e o desagrado é o efeito negativo sobre o sentimento. Para a ciência jurídica, não só Paulo teria sido um grande jurista, mas Tiago teria sido em minha concepção, um grande criminalista, visto que desenhou o iter criminis, ou seja, o caminho do crime, verbis: cogitação, preparação, execução, consumação, exaurimento. Vamos ver, a concupiscência atrai (cogitação), seduz (atos preparatórios), dá à luz (execução), o pecado propriamente dito é praticado(consumação), e finalmente produz a morte (exaurimento).

 

Que Deus nos ajude!

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