TEMA: NÃO FOI O GATO, FORAM OS POMBOS!
“Não julgueis segundo a aparência, mas segundo a reta justiça.”
(João 7:24).
Introdução:
Começo essa lição contando um fato verídico. Em nossa casa pude verificar que o gato da vizinha estava entrando e defecando nas plantas e espalhando a terra dos vasos de planta. Descobri que esse gato era de uma vizinha que inclusive é minha cliente na advocacia. O gato é muito travesso, ao passo que certo dia, adentrou em nossa casa e entrou no quarto, e, abrigou-se num dos guarda-roupas. Indignado com a bagunça que ele estava fazendo, liguei para a vizinha, e pedi que ela tomasse providências. Só que ela não conseguia conter o gato em casa. Ele insistentemente, todos os dias fazia o seu passeio matinal em nossa casa e promovia aquela bagunça básica. Chegou ao extremo, quando derrubou o vidro de um perfume que eu gostava muito. Conversei novamente com a vizinha, e ela, então, instalou uma cerca de arame em sua varanda e em suas janelas. A casa ficou uma verdadeira prisão, fiquei com dó da vizinha, mas, não havia outro jeito.
Ocorre que depois de algum tempo a areia do vaso de planta estava toda espalhada novamente, fiquei muito chateado e falei com a minha esposa, dessa vez eu vou dar a maior esculhambação na vizinha. Mas, por Deus, respirei fundo e resolvi investigar se teria sido o gato da vizinha ou outro gato qualquer, acordei bem cedo, e fiquei na espreita, quando olhei para o vaso de planta, lá estava uma pomba chocando os seus ovinhos e outros pombos ajudando na preparação do ninho e a areia toda espalhada. Fiquei de bobeira! Como dizem os adolescentes. O gato estava levando a culpa dos pombos, pelo menos dessa vez. Bom, nas outras vezes quem fez, foi o gato, mas, agora, foram os pombos que fizeram a bagunça! Moral da história, “não julgueis segundo a aparência, mas sob a reta justiça”.
Sempre me recordo de um livro cujo título é “Lucíola” de José de Alencar, lido por mim na Faculdade de Literatura. Esse livro trata de uma personagem que conseguia ludibriar o seu companheiro (Paulo), de tal sorte que a Lúcia, para Paulo seria um ser iluminado, angelical, santo, porém, na realidade ela estava sendo Lucíola, uma entidade demoniforme que o enganava com os seus ardis, mentiras e disfarces. Lúcia (Lucíola) na verdade era Maria da Glória, uma cobiçada cortesã (garota de programa em nossos dias ou menina do job), a qual não era honesta com Paulo, visto que precisava esconder o seu passado. Não obstante, rememoro do que escreveu o filósofo Giles Deleuze, a saber: “Há uma potência no falso”.
I – Não julgueis?
Por uma interpretação equivocada do texto bíblico, passamos a aceitar tudo, sem ao menos investigar de onde brotava o mal, ou por onde ele estava vindo. O Asafe, meu filho, sugeriu que assistíssemos uma série chamada o “Mentalista”, muito boa por sinal, que trata da interpretação e da leitura que precisamos fazer das pessoas, essa leitura deve ser tanto das declarações como também da linguagem corporal. Hoje, num tempo em que o caminho da mentira e da manipulação tem sido escolhido por muitas pessoas, até mesmo dentro de algumas igrejas, a prática da PNL (programação de neurolinguística) está sendo adotada para um crescimento quantitativo em detrimento da qualidade dos crentes, isso acende, a luz de alerta, e precisamos voltar a orar pelo dom de discernimento.
“Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; E a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; E a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. (1 Coríntios 12:8-10).
Para quem não sabe a PNL envolve emoção, sentimento, e um processo quase que de hipnose. Quem trabalha com persuasão, dissuasão, convencimento, sabe que para se convencer uma pessoa é preciso envolver a sensibilidade das pessoas, por isso, exploram o máximo os sentidos. Por exemplo, numa loja, te dão um café ao entrar (paladar), você entra e a loja está cheirosa(olfato), alguém muito elegante se aproxima e fica com uma voz mansa, agradável falando ao teu pé de ouvido, atuando no sistema límbico de teu cérebro, baixando a frequência de seu raciocínio (audição), te convida a olhar peças de roupa, numa primeira olhadela, ela diz, essa peça é linda, ficará linda em você (visão), ela diz, sinta a textura desse tecido, é macio (tato), confortável, então, o consumidor já está dominado e pronto para ser devorado em seu cartão de crédito, minutos de prazer por meses de sofrimento com o cartão de crédito.
Precisamos parar de fazer uma coisa, ou seja, dizer que não temos que julgar, mas, precisamos entender que precisamos julgar sim, pelo Espírito Santo, como escreveu o apóstolo João, verbis:
“Provai se os espíritos vêm de Deus” (I Jo4:2).
II – Não julgueis segundo a aparência...
Então, grave isso, Deus não nos manda deixar de lado o julgamento, mas, sim o julgamento açodado pela aparência. Bom que se tenha em mente a preciosa lição da minha professora de Psicanálise, Doutora Sônia Amat, há muito santimônia em nosso arraial evangélico, gente com a aparência de santidade, sem ser santo.
Tudo isso, exponho, para que tenhamos a certeza de que estamos num tempo em que nunca foi tão premente buscarmos o dom de discernimento. Por exemplo, para a Filosofia Grega existem duas palavras para discernimento, as quais passaremos a considerar:
II.1 – Diákrisis (Gr.) - διάκρισις:
Essa palavra significa distinguir, separar o verdadeiro do falso, na verdade é a capacidade de discernimento espiritual. Karl Popper, filósofo badalado na contemporaneidade, leciona sobre o falsificacionismo científico, como também escreveu sobre a falseabilidade de determinadas informações, trabalhou o falsificativo. Bem assim, trazendo para o nosso contexto, não podemos esquecer que estamos num tempo de falso profetismo e falsos mestres, como Jesus Cristo ensinou, que nos últimos dias surgiriam muitos falsos profetas (Mateus 24:11-24), por isso, o nosso nível de discernimento precisa aumentar.
“No passado surgiram falsos profetas no meio do povo, como também surgirão entre vocês falsos mestres. Estes introduzirão secretamente heresias destruidoras, chegando a negar o Soberano que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. Muitos seguirão os caminhos vergonhosos desses homens e, por causa deles, será difamado o caminho da verdade. (2 Pedro 2:1,2)”.
A palavra posta para comento, ou seja, diákrisis, foi a que o apóstolo Paulo usou para descrever um dos dons, ou seja, o dom de discernir os espíritos (diákrisis pneumaton, Gr.). Ponha-se a salvo que, devemos buscar de Deus esse dom. Já preguei anteriormente, lembrando que o meu avô me afirmava, que o dom mais precioso para o meu ministério seria esse, já que eu estaria arrostando, encarando os últimos dias.
Notadamente, escreveu Paul Washer: “O castigo dos falsos cristãos, são os falsos profetas”. A indagação é: como os falsos mestres e falsos profetas enganam os falsos cristãos? Dando-lhes o que querem, isto é, a resposta à ganância, á luxúria, à vaidade. Os falsos cristãos não buscam a salvação eterna, mas o sucesso absoluto nesse mundo. Meu professor Pablo Deiros chamava isso de “Triunfalismo cristão”.
II.2 – Phrónesis (Gr. φρόνησις):
Não é um paradoxo, quer dizer, uma contradição, entre o não julgar e o julgar. Afinal de contas, o Senhor Jesus Cristo manda não julgar (mandamento imperativo negativo), é um mandamento para um não fazer? Ou, é um mandamento imperativo afirmativo, que determina um fazer? É um mandamento imperativo afirmativo que exige prudência. A palavra “phrónesis” significa deliberar corretamente, escolher a “mesotês”(Gr.) o equilíbrio nas decisões, haja vista que a emoção cega.
Lembra que em linhas anteriores afirmei que os gregos usavam duas palavras para discernimento, penso que a segunda está subentendida no verso epigrafado, que abriu a nossa reflexão. Pois em nosso texto, Jesus falou sobre um julgamento segundo a justiça, ou seja, dikaían krísin (Gr.Julgamento justo).
Elementarmente, a glosa antiga carece releitura, pois o Senhor Jesus Cristo não leciona sobre o não julgar, mas que devemos tomar cuidado com o critério de julgamento e com a medida imposta, leia-se:
“Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos tornarão a medir. E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, e eis uma trave no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão. Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem”. (Mateus 7:1-6).
Como entender essa aparente contradição entre o julgar e o não julgar?! Vejamos, é necessário perceber que, no texto indigitado no Evangelho de Mateus, o Senhor Jesus Cristo está tratando de relação com os irmãos, e de questões morais, quer dizer, não podemos julgar a vida moral dos irmãos, porém, devemos julgar as questões espirituais. O discernimento não é da moral, não é da conduta, mas é das escolhas espirituais, dos atributos espirituais, das práticas espirituais, por isso, Jesus Cristo, aqui, nesse texto, está tratando da relação entre irmãos (introversa), mas, no texto epigrafado, do Evangelho de João, o texto trata da relação extroversa, da igreja e os falsos profetas. Comumente, confundimos a nossa relação entre irmãos, com a relação entre a igreja e falsos profetas. Frente a esses, precisamos de muito discernimento, quanto àqueles, precisamos de muita compaixão. A relação entre irmão e irmão não se confunde com a relação entre irmão e falso irmão. Mais, a relação na igreja não se confunde com a relação da igreja. Uma é a relação na igreja, como igreja, outra é a relação da igreja no faceio com o mundo, no enfrentamento das mentiras do diabo.
Conclusão:
Finalmente, conclui-se que é o discernimento que nos ajudará a entender que muitas vezes não é o gato, mas os pombos que estão fazendo uma grande confusão, bagunça no nosso quintal, tirando a paz, induzindo a erro, e levando a outros a se rebelarem contra a ordem e a paz.