UM BANHO DE AMOR
“Um pouco antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que havia chegado o tempo em que deixaria este mundo e iria para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (JO 13:1). O texto salienta que Jesus foi capaz de amar sempre...dura é a missão de amar sem desistir, Ele amou até o fim. A ideia de fim aqui, é de cumprimento de sua missão. Há uma teleologia no amor. O Senhor demonstra o amor não só como um meio, mas como um fim. Não é um fim em si mesmo, mas o mesmo nele está presente, pois, o amor na ótica Paulina implica em mesmeidade. Paulo disse: “De sorte que haja em vós, o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus” (Filipenses 2:5). A ideia de “mesmo”. De acordo com o dicionário etimológico “mesmo” significa ter igual identidade. Recordo-me que pude aprender na Lógica Clássica o seguinte, que para se alcançar a verdade das coisas três são os princípios, a saber: O princípio da identidade, o princípio da não contradição e o princípio do terceiro excluído. Esses princípios basicamente nos ensinam que se sou um cristão, então não sou outra coisa que não se comporta nessa minha identidade. Além disso, se sou um cristão, ao mesmo tempo não posso ser um não cristão, não se infirma o que se afirma. E por fim, se sou um cristão, há um terceiro excluído, por exemplo, ser um ateu. Não posso ser cristão sem excluir de minha vida o ateísmo. O ateísmo é o terceiro excluído. Interessante que estava conversando com a Sarinha, filha de meus amigos André Filipe e Débora, sobre o que Jesus disse a respeito do aborrecer na Bíblia, Jesus disse que teríamos que aborrecer pessoas. Ela me disse que se surpreendeu com que o professor dela falou sobre o significado do verbo “aborrecer”. Eu a disse que o professor falou com razão pois, quando Jesus fala sobre aborrecer, ele usou o verbo “misei”, ou seja, “miséo” (Gr.) que quer dizer: odiar. O vocábulo retro alinhavado deu origem por exemplo a palavra “misoginia” que significa “ódio por mulher” (hoje se fala em feminicídio que é um crime de ódio pelo sexo feminino) e, deu origem também ao vocábulo “misantropia”, traduzido como ódio pelo homem, mas aqui homem tomado em seu aspecto genérico, sem distinção sexista, ou seja, ódio pela humanidade. É forte! Pois, Jesus em Lucas 14:26 trata do tudo ou nada. Não dá para alimentar similitudes entre contraditórios. O que está por trás disso é que a medida que nos aproximamos de Cristo para nos tornarmos discípulos, passamos a rejeitar as más obras na vida daqueles que estão mais próximos. e o pior de tudo, se percebe um ódio generalizado por nós cristãos.
Ele veio só para marcar as vidas de todos nós com o seu amor, essa foi a missão que ele abraçou, ou seja, a de amar. Não foi a esmo que, a Teologia concluiu que Ele é a exata expressão do amor. Assim, posso dizer que há uma Ética no amor.
I – HÁ UMA A ÉTICA NO CRISTIANISMO
Aliás, antes da Teologia se colocar de pé como ciência, os apóstolos já diziam... “aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor” (JO 4:8); e Ele prova o seu amor para conosco... (Romanos 5:8). Muitos textos falam do amor de Deus, não só os apóstolos, mas também os profetas, é lindo o que lemos no livro de Oséias, capítulo 11, verso 4º, a saber: “Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor”...Não é lindo?! Saber que temos a Deus e que Ele nos ama e, que nos atrai com o seu amor. É cabente elucidar que a ética cuida das regras de conduta numa determinada sociedade, e, o Cristianismo trouxe certas regras de conduta, e, todas elas assentadas sobre o amor. Certamente que o amor tem espaço como Princípio norteador de todas ações dos cristãos. Em seguida o texto de João diz: “Estava sendo servido o jantar, e o diabo já havia induzido Judas Iscariotes, filho de Simão, a trair Jesus” (JOÃO 13). O inimigo procura nos induzir a erro. Por isso precisamos resistir o diabo, sendo sujeitos a Deus, porque só assim, ele fugirá de nós (Tiago 4:7). Entenda que com Deus não podemos imaginar coisas do tipo: Ele não se importa comigo, ou me feriu sem razão, ou me abandonou...essas coisas que saem num processo catártico. Precisamos conhecer mais do amor de Deus. É interessante que o filósofo Plotino punha o amor como a força motriz da alma, quer dizer, para ele o amor é que move o ser humano. A Filosofia ensina que no amor comportam o bem, o belo e a verdade. Essas seriam categorias da manifestação do amor. Deus para a Filosofia é o Sumo-bem como pode o Sumo-bem querer o nosso mal? Não tem lógica nisso. Face ao exposto, me sinto compungido a pensar sobre como o diabo seduz algumas pessoas para destruir a comunhão com Cristo, ele (o diabo) adentra no terreno de alguns corações para afastá-los de Cristo. Foi assim com Judas, mas enquanto existem traidores de um lado, de outro lado existem aqueles que querem um banho de amor. Eu gostaria que todos estivessem desejosos a receberem esse banho de amor. Neste passo, cumpre observar que o Senhor Jesus Cristo não deixou de acreditar na comunhão porque havia um Judas entre eles, ao contrário ele precisava continuar andando em direção ao calvário e preparando os seus discípulos para o amor de Deus. Somente a Teontologia tenta explicar a natureza de Deus, quer dizer, a imensidão do amor de Deus, como esse amor é imenso, incomportável em mim, o verdadeiro amor não se restringe a mim, vai além de mim, desborda, extravasa as ribanceiras da minha alma. A isso damos o nome de Teopatia, ou seja, o sentimento que traduz a natureza de Deus. O texto diz que Jesus sempre soube que o Pai tinha colocado todas as coisas debaixo de seus pés, debaixo do seu poder, e que Ele viera de Deus e estava voltando para Deus. Sendo assim, Ele tomou uma toalha para demonstrar em que consistia a sua missão (JO 13:3-5). Começou a lavar os pés de seus discípulos, e enquanto se preparava para lavar os pés de Pedro esse se negou a permitir que Jesus os lavasse. Mas, Jesus disse: “se eu não lavar não terás parte comigo, comunhão comigo”. Entende a comunhão consiste em ter aproximação. Não se pode ter vínculo distanciado do outro. O belo espiritual aparece na simplicidade, não é no corpo físico, e a simplicidade de acordo com o original grego se resume em não misturar, e, além disso, tirar, extrair os impedimentos. Quando você simplifica na verdade você retira os impedimentos, as dificuldades. É interessante que quando Pedro se pôs numa condição de humildade e não aceitou que Jesus lavasse os seus pés, num primeiro momento e Jesus asseverou que se ele não permitisse não teria parte com Ele, diante de tal asseveração, Pedro disse “então, pode lavar não só os pés, mas o corpo todo”. Isso é lindo, pois demonstrara que Pedro queria comunhão com Cristo, e se uma das condições do amar (e amar é o amor em movimento, longe da inércia) é aceitar o amor do outro, então amor remove em algumas situações o proibido e põe a salvo o permitido, outras vezes, salvaguarda o proibido e afasta o permitido. Entenda, muitas coisas não fazemos porque o amor não nos permite, e outras coisas fazemos porque o amor não nos proíbe. Existe, portanto uma ética no amor. Soma-se a isso que, na ética se busca o bem, na estética se busca o belo, de modo que, o amor só é belo se consegue se preserva distante da caricatura do pecado. Recordo-me de Kant que, debruçado sobre os fundamentos da vida humana disse que quatro são os campos de nossa atuação, verbis: O primeiro é o campo do pensar, onde nos deparamos com a Metafísica. O segundo é o campo do conhecer onde nos deparamos com a Ciência. Outro campo é o do agir, onde nos deparamos com a Ética/Moral. E, por último, temos o campo do sentir, onde nos deparamos com a Estética.
II – HÁ UMA ESTÉTICA NO CRISTIANISMO
O texto que estamos acotovelando desvela que Jesus Cristo está num ato de amor, cuidando dos seus discípulos, com uma toalha nas mãos lavando os pés de seus discípulos, era um costume entranhado na Comunidade Judaica, que objetivava exercitar o cuidado com o outro, mas Jesus fazia os momentos simples e costumeiros se tornarem em momentos especiais. O Senhor Jesus sempre soube tornar o simples em incrível. Lendo o ritual do lava pés, que é muito interessante para pensarmos que determinados rituais, digo rituais não religiosos, mas rituais de alteração de estado, de situação vivencial servem para marcar a pessoa bem como a sociedade. Explico, quando uma menina faz 15 anos, o aniversário dela ao lado das debutantes marca uma nova etapa de sua vida, pois, está com isso, anunciando ao mundo que agora se tornou uma moça. o jovem que vai para o Exército servir a Nação, porque agora ele completou 18 anos, tornou-se de maior e pode enfrentar novos desafios, é um importante ritual de amadurecimento, chamado de ritual de passagem. O casamento, o choro da noiva ao olhar para os pais ao se apresentar diante do altar, aquilo ali é um ritual que marca a ruptura com a sua vida de solteira. O lava pés na ótica de Cristo representava a alteração de nossas escolhas, pois, os meus pés caminham para onde os dirijo, de sorte que, a entrega dos pés a Cristo significa rompimento com a estrada antiga, e, preparo para uma nova experiência com Deus! Faça como Pedro, entregue os seus pés, suas pernas, o corpo todo, a alma inteira, o espírito íntegro para o teu Senhor Jesus Cristo.
Conclusão:
Passa ser um cristão o crente passa por três fases, a uma, a fase de ser chamado por Deus, a duas, a fase de ser um discípulo, a três, a fase de ser um “apóstolo”, ou seja, aquele que abraça uma missão. Apóstolo não no sentido estanque, de um grupo fechado de pessoas, mas de uma consciência que todo o discípulo deve abraçar a missão.
Do vosso Conservo, Bispo Alexandre R. Metello
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